MAS JOANA AMARAL DIAS FOI APAGADA DE QUÊ?
"No fim-de-semana passado, Joana Amaral Dias, que foi da direcção do Bloco de Esquerda, deixou de ser da direcção do Bloco de Esquerda. Pois passámos a semana com um escarcéu sobre o crime cometido contra Joana Amaral Dias. Alguns jornais (o Expresso, ontem, voltava à carga) e blogues desenterraram o exemplo de José Estaline, o líder da URSS, que até apagava das fotografias oficiais quem caía em desgraça.
Um dos problemas com as polémicas nacionais é rapidamente descambarem para o atrevimento dos ignorantes. Quem não sabe compara o que não sabe e porque não sabe ignora o ridículo das comparações absurdas. Estaline purgava as direcções do PC, prendia os antigos companheiros, torturava-os, levava-os a julgamentos fictícios e matava-os com um tiro na nuca nas caves da Tcheka e NKVD.
Nikolai Bukharine, com Lenine o maior teórico russo do comunismo, levado a tribunal por Estaline, em 1937, confessou-se autor de todos os crimes, foi condenado e fuzilado. Joana Amaral Dias, depois da convenção do BE, onde foi destituída, deu entrevistas e foi jantar. Leon Trotsky foi perseguido até ao México, morto com um picador gelo e apagado das fotografias do Kremlin. Joana Amaral Dias foi muito fotografada na tal convenção.
Neste caso, foi-se buscar Estaline porque os dois maiores partidos que fundaram o BE já cantaram loas, um, a UDP, a Estaline, e outro, o PSR, a Trotsky. À falta de se discutir essa união (talvez) contranatura, aproveita-se um qualquer pretexto para evocar o gosto pelo Photoshop (a arte de mudar as fotografias) dos revolucionários comunistas. Foi-se por aí, sem ninguém parar na pergunta primeira: mas Joana Amaral Dias foi apagada de quê? Um partido que já a tinha votado para a direcção desvotou-a. Mas não é esse o direito inalienável dos grupos (partidos ou jogadores de sueca), dizer quem querem para seu?
Com o apetite que as polémicas abrem, o Expresso conta que no vídeo oficial da história do BE Joana Amaral Dias foi semiapagada: só aparece três segundos. Mas, além da sugestão de que o BE é revolucionário envergonhado, em vez de apagar à estalinista (com frenesim e gatilho), deixa leves indícios das vítimas, que lições tirar desses só três segundos? Que Pasionária, que Longas Marchas, que brochura Que Fazer?, que gloriosos movimentos de massas organizados, que atestados alguém tem (e não só Joana Amaral Dias) para merecer mais de três segundos?
É, as polémicas em Portugal passam quase sempre ao lado. E, no entanto, quando se faz algum esforço, encontram-se motivos substantivos para debater. O organizador do vídeo do BE confessou ao Expresso: "Não havia imagens de Joana Amaral Dias. A única que existe está lá." Como confiar num partido que, tendo Joana Amaral Dias, lhe guarda três segundos de imagens?"
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