segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

RESCALDO DO REFERENDO

A principal conclusão que há a retirar do referendo é que a maioria dos portugueses não gosta de ser ouvida ou não tem opinião sobre as coisas.
Já são 3 os referendos em que somos chamados directamente a legislar ou a ter uma palavra forte na legislação e pura e simplesmente não dizemos presente.
Contudo, acredito que hoje muitos dos que não foram votar ontem estão na linha da frente das críticas aos resultados, não percebendo que com isto só mostram o ridículo em que este país cai.
Só pode falar quem se deslocou às mesas de voto.
Todos os outros têm que ficar de boca fechada, porque se não conseguiram arranjar uma oportunidade para irem votar, é porque não têm opinião e se não a têm não podem agora concordar ou discordar do que quer quer tenha sido ou venha a ser decidido.
Somos os primeiros a refilar e a falar mal dos deputados, mas no final + de 56% dos portugueses são iguais ou piores a eles.
E nem se fala então nos Açorianos.
Eu fui votar.

10 comentários:

Anónimo disse...

Os portugueses não foram votar porque sabiam, antecipadamente, qual seria o resultado prático deste acto, independentemente do resultado expresso na votação.

Os portugueses sabiam, antecipadamente, que o parlamento iria mudar a lei se o “Sim” ganhasse, mesmo que o referendo não fosse vinculativo (50%+1).

Os portugueses sabiam, antecipadamente, que o Governo queria alterar a lei, mas que não queria o “ónus” desta responsabilidade.

Os portugueses sabiam, antecipadamente, que a Constituição e a lei orgânica do referendo (valor reforçado) seriam violadas, como provam as declarações de José Sócrates ontem à noite.

Os portugueses sabiam, antecipadamente, que os políticos fizeram “letra morta” da Constituição, quando se aventuraram num referendo levantado por uma questão ideológica da “esquerda”.

Os portugueses desconfiavam, também, que estavam a usar um assunto sério, de consciência e humanismo social, para desviar as atenções do país sobre o país.

Os portugueses sabiam isso tudo.
E, hoje, sabem que a lei vai ser alterada. Uma decisão acertada, feita de forma errada.

RCBC disse...

Porquê a não despenalização do consumo e tráfico de drogas? Acabar-se-ia com o tráfico de droga e aumentava-se as receitas fiscais! À semelhança do aborto, liberalizava-se essa situação (tráfico de droga) para acabar com a sua clandestinidade…
Porquê a não redução da idade mínima de trabalho para 10/12 anos? Acabar-se-ia com o trabalho infantil clandestino (que com certeza existe em Portugal!). À semelhança do aborto, liberalizava-se essa situação (trabalho infantil) para acabar com a sua clandestinidade…
Se a lógica dos defensores do “sim” ao aborto foi despenalizar para resolver todos os problemas associados ao aborto, seria interessante que estes acérrimos defensores do “sim” se pronunciassem sobre a melhor forma de resolver dois problemas tão prementes como o tráfico de droga e o trabalho infantil!!!

Simão Pfc Neves disse...

Caro anónimo, os portugueses não foram votar porque:
- são preguiçosos;
- não têm sentido de responsabilidade social e cívica;
- nunca levam nada a sério, quando não lhes mexe directamente no bolso;
- deixam sempre para os outros o que podem ser eles a fazer e depois refilam do que foi feito.
Tudo o resto é arranjar desculpas, aliás como os partidos o fizeram, ao congratularem-se pela descida da abstenção.
Mas qual descida?
De péssimo para muito mau?
Mas isto é razão para ficar contente?
Deviam era ter chamado as coisas pelos seus nomes:
MAIS UMA VEZ OS PORTUGUESES FORAM IRRESPONSÁVEIS!!!

Anónimo disse...

Compreendo esta crítica, mas não neste caso.
Então, muda-se as regras a meio do jogo e os portugueses é que são irresponsáveis. Antes da marcação oficial do referendo, o Sócrates nunca disse o que pretendia fazer dos resultados. Depois de marcada a data, diz-se aos portugueses que, afinal, mudam-se as regras, e é comer e ... votar. Não. A Constituição diz que é preciso ter 50%+1 para um referendo ser vinculativo. Das duas uma; ou a Assembleia legislava sem por o referendo ao "barulho" ou, em alternativa, respeitava a lei do próprio referendo. Tudo o resto é a descredibilização da política com reflexos, a prazo, em mais abstenção. Não são desculpas. São dados da Ciência Política, estudados por várias persoanlidades, caso de David Easton, na teoria da "formação das decisões".

Simão Pfc Neves disse...

Percebo a sua reflexão, mas continua na minha.
Abstenção nunca.
Se temos que protestar, existe um método que em minha opinião é muito mais válido: votar em branco.
Considero mais válido, porque o cidadão está a dizer que está interessado, mas que não concorda.
Este sim é o voto de descontentamento civicamente responsável.
A abstenção, desculpe lá, mas para mim significa que há desinteresse, venha as teorias de Ciência Política que vierem.
Interpretaria da mesma forma:
56% de abstenção e 56% de votos em branco?

Anónimo disse...

Afinal, a palavra certa do seu comentário é desinteresse e não irresponsabilidade. A questão que se coloca, então, é qual a razão deste desinteresse? É apenas isto que tento explicar. Sócrates, como é hábito, jogou na formação da decisão. Primeiro lançou uma informação (ideia de referendo), depois recolheu o "load" (feed-back da sociedade) e, por fim, respondeu com o "goal" (mudança da lei). Isto tudo sem um referendo vinculativo. É quase impossível um eleitor náo se sentir usado. Perante isso, abstenção é, claramente, uma posição política.

Anónimo disse...

Já agora para finalizar. Esta estratégia não é nada nova neste Governo. Lembram-se das fugas de informação "estratégicas" nos jornais sobre taxas de internamento, subidas de impostos e portagens nas scut. São exemplos disso. Lançam-se impulsos para ver como o sistema reage e, em função do feed-back, decide-se. Todos os Governos usam. Mas nenhum tinha ido tão longe, sem que os portugueses se apercebessem. Sócrates, o original, já dizia; "O homem é um animal político". Sócrates, o actual, faz questão de provar que é verdade.

Simão Pfc Neves disse...

Eu concordaria com todo o seu raciocínio se a abstenção não fosse uma constante seja qual seja o assunto.
E quanto à razão do desinteresse, dizer que é esta ou outra qualquer é pura e simplesmente especular.
A única posição política que eu entenderia seria, como disse antes o voto em branco, porque este sim mostrava uma enorme franja da população descontente, enquanto a abstenção o que mostra é que perante um chamamento o povo pura e simplesmente não compareceu, o que seja qual for o nome que lhe queira chamar é e será sempre uma atitude irresponsável.
O desinteresse, neste caso, é uma atitude irresponsável.
Quanto ao jogo do Sócrates, você tem toda a razão, mas não tenha dúvidas que todos os políticos são assim. Todos. E os que o não o são é porque são muito maus.
Por isto é que é importante um povo culto, educado e participativo para colocar estes senhores na ordem, mostrando-lhes que quando for preciso saberemos mostrar um cartão amarelo ou vermelho.
E sinceramente não é com abstenções deste nível que alguém fica descançado, por um lado, ou com medo, pelo outro.
Aliás, esta é a razão pela qual nenhum dos políticos se preocupa verdadeiramente com a abstenção.

Simão Pfc Neves disse...

Neste segundo aspecto você tem toda a razão.
Esta tem sido uma estratégia deste governo, ou melhor, de Sócrates.
Digo de Sócrates, porque li uma vez no Expresso que o homem controla tudo ao ínfimo pormenor.
Às 2ªs feiras ele reúne um "gabinete de crise" onde são constantemente alicerçadas as estratégias quer para o Governo, quer para o Partido, e tudo, mas tudo é controlado ao mais ínfimo pormenor.
Tudo, menos o Pinho ao que parece.

Simão Pfc Neves disse...

Anónimo, tinha-me esquecido de 3 coisas:
1º Agradecer-lhe os comentários, porque permitiram uma excelente troca de argumentos;
2º Agradecer-lhe porque provou que o anonimato não serve única e exclusivamente para dizer palavrões ou barbaridades, serve para apresentar ideias e argumentos não querendo que se saiba a nossa identidade, o que é perfeitamente legítimo;
3º Convidá-lo a participar sempre que lhe apetecer, porque é muito bem vindo.