sexta-feira, 11 de agosto de 2006

ALGUÉM SE REVÊ?

"Sabes meu filho, até hoje não tive tempo para brincar contigo. Arranjei
tempo para tudo, menos para te ver crescer. Nunca joguei dominó, damas,
xadrez ou à batalha naval. Eu percebo que tu me procuras, mas sabes meu
filho, eu sou muito importante e não tenho tempo. Sou importante para
números, convites sociais e toda uma série de compromissos inadiáveis. Como
largar tudo isto, para ir brincar contigo? Não, não tenho tempo.

Um dia trouxeste o teu caderno escolar para eu ver e ficaste a meu lado.
Lembras-te? Não dei atenção e continuei a ler o jornal. Porque afinal os
problemas internacionais são mais sérios do que os da minha casa. Nunca vi
os teus livros, não conheço a tua professora. Nem me lembro qual foi a tua
primeira palavra. Mas tu sabes, eu não tenho tempo. De que adianta saber as
mínimas coisas a teu respeito, se eu tenho outras grandes coisas a saber. É
incrível como tu cresceste! Estás tão alto! Não tinha reparado nisso. Aliás
eu quase não reparo em nada. E na vida agitada, quando tenho tempo prefiro
usá-lo lá fora, porque aqui fico calado diante da televisão. Porquê? Porque
a televisão é importante e informa-me muito.

Sabes meu filho, a última vez que tive tempo para ti, foi numa noite de amor
com a tua mãe. Eu sei que tu te queixas, eu sei que tu sentes a falta de uma
palavra amiga, duma brincadeira, dum chuto na bola. Mas eu não tenho tempo.
Eu sei que sentes a falta de um abraço e de um sorriso, de um passeio a pé,
de ir até ao quiosque, ao fundo da rua comprar um jornal, uma revista. Mas
sabes há quanto tempo eu não ando a pé na rua? Não tenho tempo. Mas tu
entendes eu sou um homem importante. Tenho de dar atenção a muito gente, eu
dependo delas. Meu filho, tu não entendes nada de comércio. Na realidade eu
sou um homem sem tempo. Eu sei que tu ficas triste porque as poucas vezes
que falamos é um monólogo; só eu é que falo.

Eu quero silêncio. Quero sossego e tu tens a péssima mania de querer brincar
com toda a gente. Tens a mania de saltar para os braços dos outros. Filho eu
não tenho tempo para te abraçar. Não tenho tempo para conversas e
brincadeiras de crianças.

Filho, o que é que tu percebes de computadores, comunicação, cibernética,
racionalismo? Tu sabes quem é Descartes e Kant? Como é que eu vou parar para
falar contigo? Sabes meu filho, Não tenho tempo. Mas o pior de tudo, o pior
de tudo é que se tu morresses agora, neste instante, eu ficava com um peso
na consciência. Porque até hoje, não arranjei tempo para brincar contigo, e,
na outra vida, Deus não terá tempo de me deixar pelo menos ver-te."

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